Apropriações Afetivas

Os livros Apropriações/Coleções (2002) e O Triunfo do Contemporâneo (2012) trazem exemplos de artes visuais contemporâneas brasileiras. Eles foram publicados com o patrocínio do Santander Cultural, fundação do Banco Santander que tem a missão de incentivar manifestações da cultura contemporânea. Juntos, estes livros apresentam mais de uma centena de obras, entre pinturas, esculturas, objetos, coleções, instalações etc. Um fragmento desse conteúdo será abordado em dois ensaios aqui no Formas Vizinhas.

A primeira fonte será o Apropriações/Coleções, que foi concebido após cuidadosa pesquisa do teórico da arte Tadeu Chiarelli. O resultado foi a seleção de artistas de sete estados brasileiros, a partir dos quais é possível ampliar a compreensão sobre a recente produção artística nacional. Esses artistas têm em comum o fato de produzirem a partir de objetos preexistentes, efetivando apropriações. “Com isso, mudam a condição deste algo preexistente, o transformando em objeto artístico” (CHIARELLI, 2002, p. 3). A apropriação pode ser entendida desde a eleição de objetos e ideias até às práticas de colecionar e catalogar.

É esclarecedora a noção de apropriação que está implícita no conceito de readymade, criado pelo artista francês Marcel Duchamp. De acordo com ele, no seu readymade: um objeto comum é elevado ao estado de dignidade de uma obra de arte pela mera escolha de um artista. (DUCHAMP, citado por PELED, 2007).  Com isso, esse artista despertou uma nova visão sobre a arte e destacou o momento no qual a noção clássica de “isto é belo, enquanto arte” mudou para uma condição moderna: “isto é arte” (DE DUVE, 1998, citado por PELED, 2007). Essa estratégia contribuiu para que Duchamp seja, até hoje, considerado central na discussão sobre a arte contemporânea.

Duchamp nasceu em 1887 e estudou pintura na Académie Julian (Paris) até 1905. Após a declaração de guerra (1914), viajou para a América, onde, três anos depois, tentou expor sua obra A Fonte. Esse trabalho – um urinol assinado com o pseudônimo R. Mutt – se baseou na apropriação artística de um objeto de cunho utilitário. Naturalmente, um mictório do desconhecido senhor R. Mutt não poderia entrar em uma exposição; nem mesmo em uma mostra de artistas independentes (PELED, 2007). A Fonte ampliou o foco de atenção para além da “obra” artística em si, questionando também o “circuito” da arte.

No entanto Chiarelli (2002, p. 21) lembra que as apropriações artísticas já eram realizadas antes do readymade pelos cubistas, em suas colagens. “Nomeada como papiers collés (papéis-colados), essa técnica se desenvolveu rapidamente e muitos objetos, além de variados tipos de papéis, começaram a ser agregados à superfície das telas: madeira, areia, tecidos, cartas de baralho, entre outros materiais” (FONSECA, 2009, p. 3). Essa prática foi intensificada posteriormente por outros grupos modernos, como os surrealistas, e vem se intensificando até à contemporaneidade.

Nuno Ramos, "Sem título". Foto: Reprodução  Nuno Ramos.
Nuno Ramos, “Sem título”. Foto: Reprodução Nuno Ramos.

Apesar de as apropriações existirem na arte já há muito tempo, os termos “apropriação” e “apropriacionismo”, usados no âmbito da arte, tal como os entendemos hoje, surgiram no fim dos anos 70 como indicativos de uma modalidade artística (RIBEIRO, 2008). Nela, o artista nega a visão de arte pautada por sua originalidade e pela valorização do gesto criador. O mundo é encarado como uma grande enciclopédia de signos. A referência do artista passa a ser a cultura e não a natureza. Sobre isso, o artista conceitual Douglas Huebler (1968) escreveu: “O mundo está cheio de objetos, mais ou menos interessantes; não desejo adicionar-lhe mais nenhum. Prefiro, simplesmente, declarar a existência de coisas em termos de tempo e espaço.”

Diferentes formas de apropriação são praticadas pelos artistas presentes no livro Apropriações/Coleções. Essa realidade remete à imagem da produção artista contemporânea como um arquipélago.  Na visão do crítico da arte Agnaldo Farias (2002): “Um arquipélago porque cada boa obra engendra uma ilha, com topografia, atmosfera e vegetação particulares, eventualmente semelhante a outra ilha, mas sem confundir-se com ela. Percorrê-la com cuidado equivale a vivenciá-la, perceber o que só ela oferece”.  Mantendo este espírito investigador, neste texto serão abordados trabalhos dos artistas Elida Tessler, Paulo Gaiad e Fabiana Rossarola.

Elida Tessler vive e trabalha em Porto Alegre (RS). É artista plástica, pesquisadora e professora de artes visuais. Em 1999, Tessler participou da 2ª Bienal do Mercosul com o trabalho DOADOR, uma instalação com 270 objetos do cotidiano (e 270 placas de metal com inscrições) expostos no interior de um túnel branco. Para sua concepção, foram enviadas cartas a diversas pessoas com um pedido de doação. Cada pessoa deveria doar pelo menos um objeto de uso cotidiano que contivesse em seu nome o sufixo “DOR”. Nenhum dos objetos presentes no trabalho pertencia à artista.

Tessler está voltada para a exploração poética do ato de colecionar. Nesta instalação o que conta não é conceber uma coleção original, mas sim propor uma alegoria sobre a perda e a dor (CHIARELLI, 2002). Este corredor, de quase dez metros de comprimento, tem as mesmas medidas daquele que separava o apartamento de Tessler do apartamento do seu avô. “O corredor que os separava e os unia” (CHIARELLI, 2002, p. 29). Nos anos em que conviveu com seu avô, para a artista, este lugar de encontro significava afeto. Agora, após a perda, rememorava a dor.

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Coador, barbeador, espremedor, grampeador, ventilador etc. Tessler buscou uma dor latente e sonora, através das palavras solicitadas pelas coisas. Os nomes dos doadores de cada objeto estão gravados nas placas de metal. Essa instalação é representativa da contemporaneidade na arte. Seja pela prática da apropriação, pela participação do público no seu processo criativo ou por apresentar fragmentos de uma narrativa (KUNZLER, 2010). Além disso, DOADOR demonstra como na atualidade as artes visuais podem adentrar em territórios que não lhes são próprios, como o das palavras.

Outro trabalho no qual as pessoas foram convidadas para participar foi Receptáculos da Memória, de Paulo Gaiad. Nele o artista de São Paulo reforça  o vínculo já há muito explorado entre coleção e memória. “Tratar de apropriações, portanto, é também tratar de memória, coleções, de arquivos – instituições humanas sempre em mutação (…)” (RIBEIRO, 2008, p. 5). Essa intenção está cristalina no processo de concepção adotado pelo artista. Gaiad solicita às pessoas que lhe enviem objetos capazes de sintetizar momentos muito especiais de suas vidas, principalmente aqueles ocorridos durante a infância. Essa é sua taxonomia.

Quando chegam para o artista, esses objetos estão impregnados de um sentido que era inexistente no início do seu ciclo de vida, pois agora são depositários de afetividades. Para seus donos, eles simbolizam um passado totalmente idealizado  (CHIARELLI, 2002). Ao receber essas doações, o artista acrescenta a elas sua própria subjetividade, ora reafirmando, ora criando novos significados. Gaiad usa caixas de metal para unir as doações com os novos objetos e materiais. Há um encontro de sentimentos: os do doador com os do artista, que não é mais visto como um gênio criador, mas como um articulador de universos poéticos.

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Paulo Gaiad, 2002, “Receptáculos da Memória,”. Foto: Reprodução Apropriações|Coleções.

Os materiais acrescentados por Gaiad aos objetos doados podem ser entendidos por sua carga simbólica e por suas características físicas. Uma caixa guarda, protege e reúne; o metal resiste ao tempo (as falhas na sua superfície são provas dessa passagem) e é condutor de energia. Essas são leituras possíveis e, neste ponto, há uma aproximação entre Receptáculos da Memória e as obras do artista alemão Joseph Beuys. Por várias razões, Beuys é considerado um dos fundadores da arte contemporânea. Sobre o uso que ele fazia dos materiais, Elida Tessler escreveu (1996):

Ao mesmo tempo, pensando o material utilizado por Beuys, alcançamos uma via de acesso à compreensão de sua obra. […]. O feltro não tem direito nem avesso. Possuindo cor neutra, o feltro é destinado a servir de isolante, de proteção, com fortes referências à pele, manto, vestimenta. Em Beuys, os materiais são eles mesmos, no sentido de que não constituem matéria-prima para a criação de uma outra forma especifica. […]. 0 material nos permite experimentar sensações de estranhamento e identificações com determinadas realidades e é esta a incógnita motora de todo pensamento na obra de Beuys.

No entanto, nem sempre os objetos apropriados do cotidiano para a arte são possuidores de características físicas como peso e textura.  Para criar suas esculturas de tecido a artista Fabiana Rossarola, por exemplo, se apropria de fotos amadoras dos seus parentes e amigos mais próximos. De posse dessas imagens, ela as processa em fotocopiadoras (xerox) coloridas, ampliando-as até que atinjam o tamanho natural. Em seguida, Rossarola transfere as imagens para tecidos que serão estofados até que fiquem com a aparência tridimensional das pessoas retratadas. Essas esculturas peculiares levam a uma indagação: “A fotografia também é objeto?” (RAMIRO, 2002).

Fabiana Rossarola, 1999, "Sem Título". Foto: Reprodução MAM.org.
Fabiana Rossarola, 1999, “Sem Título”. Foto: Reprodução MAM.org.
Fabiana Rossarola, 1999, “Sem Título”. Foto: Reprodução MAM.org.
Fabiana Rossarola, 1999, “Sem Título”. Foto: Reprodução MAM.org.

A fotografia captura as imagens em um presente dinâmico e as congela em um passado estático, bidimensional e geralmente reduzido. A transformação que Rossarola realiza nos retratos, no entanto, intensifica essa paralisação produzida pelo ato fotográfico (CHIARELLI, 2002). Para o Formas Vizinhas, este trabalho expressa uma ambiguidade. Colecionar imagens de pessoas queridas é uma manifestação da afetividade da artista, mas a aparência das esculturas também expressa morbidez. Afinal, esses objetos reduzem ou intensificam a ausência das pessoas retratadas? Para Chiarelli, no entanto, este traço só aumenta as potencialidades poéticas destes trabalhos.

Este texto abordou obras de arte contemporâneas que contêm objetos cotidianos apropriados a sua estrutura. Para o sociólogo Jean Baudrillard (1994), o objeto colecionado deixa de ser definido pela sua função para entrar na ordem da subjetividade. Essa mutação ocorre nos trabalhos estudados, casos nos quais objetos se vinculam em coleções de afetividades. Além disso, nessas obras são utilizadas estratégias para transformar o público de “observador” para “coautor”. A arte contemporânea propõe modelos participativos que incorporam sujeitos ao ato criador. (CONSONI , 2013). Essas observações, porém, não encerram os sentidos destes trabalhos, cabendo a cada leitor o encargo de encontrá-los.

Artistas dessa publicação:

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Referências:

CHIARELLI, Domingos Tadeu. Apropriações/Coleções. Porto Alegre: Santander Cultural. 2002.

CONSONI, K. P. Artista, Obra e Público: Reflexões Sobre as Possibilidades de Interação com a Arte Contemporânea. Dissertação (Bacharelado em Artes Visuais). UNESC. 2013. Criciúma.
< http://repositorio.unesc.net/bitstream/handle/1/1860/Karize%20Pereira%20Consoni.pdf >

EUROPEAN GRADUATE SCHOOL. Biblioteca. Marcel Duchamp – Biography. Suiça.
< http://www.egs.edu/library/marcel-duchamp/biography/ >

FIDELIS, Gaudêncio. O Triunfo do Contemporâneo. Porto Alegre: Santander Cultural. 2012.

FONSECA, A. K. Collage: A Colagem Surrealista. Artigo – Revista Educação. UNG. 2009. Guarulhos.
< http://www.revistas.ung.br/index.php/educacao/article/view/462/569 >

KUNZLER, N. A. A Arte Visual no Mundo Contemporâneo. Artigo – Laboratório de Artes Visuais – UFSM. 2010. Jaguari. < http://cascavel.ufsm.br/revistas/ojs-2.2.2/index.php/revislav/article/view/2133/1295 >

MOTTA, Gabriela Kremer. Entrevista com Elida Tessler. 2005. Porto Alegre.
< http://tinyurl.com/entrevista-gabrielamotta >

PELED, Y. Ready Made: Inclusão Ruidosa. Artigo – Associação Nacional de Pesquisadores de Artes Plásticas. 2007. Florianópolis.
< http://www.anpap.org.br/anais/2007/2007/artigos/177.pdf >

RIBEIRO, V. C. Apropriação na arte contemporânea: colecionismo e memória. Artigo – Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas. 2008. Florianópolis. < http://anpap.org.br/anais/2008/artigos/075.pdf >

TESSLER, E. Formas e Formulações Possíveis entre a arte a vida: Joseph Beuys e Kurt Schwitters. Artigo – Revista de Artes Visuais. UFRGS. 1996. Porto Alegre. < http://seer.ufrgs.br/index.php/PortoArte/article/download/27571/16110 >

Acessos em 8 de Maio de 2015.

Exemplos da Bienal 2014

Desde 2011, a Bienal de São Paulo conta com o Educativo Bienal, grupo que tem o papel de mediar a relação entre as pessoas e as obras, gerando diferentes tipos de aproximação com a arte. Durante a 31º Bienal, a Revista Escola, do Grupo Abril, com a colaboração do Educativo, produziu o simpático vídeo: O que é arte contemporânea? O exemplo da Bienal 2014. A produção exibe belas imagens da exposição e trata com leveza um tema que às vezes é muito confuso para as pessoas: a arte visual contemporânea.

O conteúdo é aberto pela Daniela Azevedo (coordenadora-geral do Educativo Bienal), mas também contribuem Pablo Tavallera, Marcos Felinto, Laura Barboza, Felipe Tenório e Elaine Fontana, todos do Educativo. Durante nove minutos, o expectador é levado a pensar sobre como é possível decodificar uma obra contemporânea a partir da relação entre o objeto e o repertório consciente ou inconsciente de cada pessoa. Repertório que pode incluir ou não conhecimento sobre a arte e os artistas.

A arte é relevante para a sociedade atual porque pode funcionar como indutora de fins não artísticos. É o que ocorre, por exemplo, com uma obra de conteúdo político. Imagine uma instalação que leve as pessoas a pensarem sobre um planeta sem água e que seja exibida para diferentes grupos de pessoas. Além disso, a arte ajuda a sociedade a perceber o mundo como ele realmente é e ainda propicia uma experiência estética intensificada. Por tudo isso, é importante estimular o contato com a arte, função da Bienal de São Paulo (e também deste ensaio).

No entanto, esta aproximação com a arte nem sempre resulta em afeição. Muitas vezes os espectadores não compreendem as manifestações a que estão expostos, o que os leva a duvidar de sua legitimidade (KUNZLER, 2010). Para o crítico de arte Agnaldo Farias, a incompreensão leva muitas vezes à rejeição e à aversão do espectador: algo que eu não compreendo é algo que afirma a minha impotência. Portanto é oportuna a estratégia da Bienal de São Paulo de investigar e discutir a essência do trabalho de cada artista com o público da exposição.

Uma das obras que estavam na edição 2014 do evento era Mujawara, dos arquitetos baseados em Israel Sandi Hilal e Alessandro Petti em conjunto com um grupo brasileiro.  Hilal e Petti são fundadores do The Decolonizing Architecture Institute (DAAR), ou Instituto de Arquitetura Descolonial. O DAAR explora as possibilidades de reutilização e subversão de estruturas de dominação na Palestina, como bases militares e restos de aldeias destruídas. Alguns projetos deste instituto já foram mostrados em várias bienais e museus. Para Hilal e Petti:

Nosso trabalho não deve ser interpretado como uma tentativa de articular uma utopia arquitetônica, nem como um instrumento político para “denunciar” ou “mobilizar” a opinião pública. Nós encaramos a nossa prática como uma tentativa de produzir um espaço a partir do qual é possível operar no aqui e agora. Entre seus efeitos poderia estar a abertura da imaginação política.

Mujawara, de Alessandro Petti, Sandi Hilal e Grupo Contrafilé. Foto: Bienal de São Paulo.
Alessandro Petti, Sandi Hilal e Grupo Contrafilé, “Mujawara”. Foto: Bienal de São Paulo.

Também participaram da concepção da instalação os brasileiros do Grupo Contrafilé, que realiza o projeto Parque para Brincar e Pensar, de pesquisa e intervenção urbana. O Grupo explora a necessidade de relação entre diferentes gerações e classes sociais nos espaços comuns da cidade. Estimulados a criar juntos, Hilal, Petti e o Grupo Contrafilé perceberam a conexão entre suas obras, mais marcadamente aquelas que tratam da ambivalência que ocorre na relação com a terra (terreno fértil para o comunitarismo e para contradições).

Os educadores da Bienal despertam diferentes visões sobre Mujawara. Para este blog, a instalação apresenta um belo símbolo da terra para fazer pensar sobre a ocupação do território e seus espaços de convivência. A visão do baobá em crescimento, árvore que pode atingir grandes dimensões, provoca uma reflexão sobre o potencial da terra, sua fertilidade, e sobre como escolher partilhá-la e usá-la.  Por possuir alguns dos seus realizadores radicados na Palestina, Mujawara evoca enormes conflitos sobre a terra – e que já fazem parte do cotidiano.

Esses conflitos também são comuns nas cidades ou nos campos do Brasil – basta lembrar dos movimentos Quilombolas e Sem Terra. No entanto, há alternativas? É isso o que propõem os criadores da obra que, mesmo atuando em territórios tão distantes, se assemelham ao revitalizar espaços destruídos ou abandonados para criar locais de encontro. Nestes ambientes pluralistas (e não-ideais), os participantes podem brincar ou aprender. Os mediadores buscam a acomodação de interesses nascidos a partir da interação entre pessoas de diversas classes sociais, regiões, gêneros e idades.

Alessandro Petti, Sandi Hilal e Grupo Contrafilé, “Mujawara”. Foto: Bienal de São Paulo.
Alessandro Petti, Sandi Hilal e Grupo Contrafilé, “Mujawara”. Foto: Bienal de São Paulo.

Além desta instalação, a filmagem da Bienal mostra desenhos de Dan Perjovschi e esculturas do polonês Edward Krasiński, falecido em 2004. Diz-se que o aspecto mais importante da produção de Krasiński é a sua própria vida e a sua atitude criativa frente à realidade. A “vida na arte”, de  Krasiński, contribuiu para que ele estivesse constantemente influenciando o mundo com sua personalidade, desafiando as formas tradicionais de arte e seus significados. Ele estudou design de interiores, design gráfico e pintura em Cracóvia, na Polônia.

Em 1964, ao ar livre, Krasiński criou a obra espacial Lança da Era Atômica, que pendurou em um local aberto entre as árvores. Com ela, Krasiński reduziu a escultura a uma linha. Em muitas de suas obras, o artista combinava objetos banais em constelações surpreendentemente simples, que se pareciam com gráficos geométricos, e alcançava um minimalismo formal. Se alguém quiser encontrar um tema orientador para toda a arte desse artista, o termo infinito parece ser o mais útil. Krasiński quis transformar o infinito em algo visualmente perceptível.

Edward Krasiński,
Edward Krasiński, “Untitled”, 1965. Foto: Culture.pl.

Dan Perjovschi usa marcadores pretos permanentes como principal meio para desenhar diretamente sobre as paredes de museus e espaços artísticos. Com seus desenhos, o romeno registra situações e eventos diários, bem  como fatos recentes na política internacional. Falando sobre si mesmo em uma entrevista em 2010, o artista disse: “Sou um performer. É como jazz e improvisação. Recorro a um repertório e um feedback contínuo de mim para mim mesmo. Cada desenho que adicionado na parede modifica a composição e o meta-texto. Eu sou um repórter global.”

Como parte do seu conceito artístico, Perjovschi realiza seus desenhos tanto em instituições de arte consagradas quanto em espaços marginais. Desse modo, leva questões problemáticas da periferia para espaços famosos e elitizados; e os caprichos das metrópoles mundiais para as paredes e janelas das cidades pequenas. Para o artista, a Internet e as redes sociais são um meio para levá-lo até o centro dos grandes acontecimentos mundiais, a partir dos quais ele cria suas sínteses visuais.

Dan Perjovschi's,
Dan Perjovschi’s, “What Happened to Us?”, 2007. Foto: MoMA NY.

Outro conteúdo suscitado pelo vídeo da Bienal são os filmes criados pelo fotógrafo, cineasta e artista canadense Mark Lewis. Suas criações tendem a tratar das cidades contemporâneas, da história do cinema e da forma como filmes têm impacto sobre vida a cotidiana. Os trabalhos de Lewis são descritos como experiências temporais puras, visualmente evocativas e predominantemente silenciosas. Suas filmagens costumam acontecer em lugares incidentais encontrados na vida cotidiana das cidades. Veja um filme.

Mas, o que há de comum entre os artistas mencionados nesta publicação? Essa resposta é parte do esforço para entender a arte visual contemporânea. Como a produção artística está ligada à sociedade, compreender o momento atual é especialmente útil para decifrar o novo na arte.  Um dos efeitos da 2ª Guerra Mundial na atualidade foi a incredulidade perante discursos atemporais e universalizantes. A contemporaneidade é anti-totalitária, fragmentada e afia inteligências para o que é heterogêneo. Nela, perde-se a grandiosidade, mas ganha-se a tolerância (LYOTARD, 2002).

Para o filósofo Otaviano Pereira, que tem ênfase na crítica da modernidade, há nos tempos atuais a quebra de valores “eternos” da civilização e a desistência dos valores da “alta cultura” iluminista, cedendo espaço para outras formas de manifestação cultural (como a cultura afro, por exemplo). Além disso, na contemporaneidade aparecem novas linguagens em todos os âmbitos de ação e das relações humanas; a inclusão das diferenças, antes negadas ou ocultas, do movimento das chamadas minorias; a inclusão da Internet e do conhecimento em rede, etc (PEREIRA, 2005).

Portanto, apesar de todas as obras e artistas estudados neste ensaio serem de um período classificado como contemporâneo, da década de 50 até hoje, é perceptível a pluralidade de linguagens, discursos, materiais e processos. Nem mesmo o espaço ocupado pelas criações é igual. Hoje os artistas estão distanciados das verdades absolutas de outras épocas e buscam desvincular-se até mesmo do objeto. A complexidade da arte de hoje faz parte da própria complexidade humana, mas ela se lança no desafio de se aproximar das pessoas de diferentes formas e surpreendê-las.

Assista ao vídeo que inspirou este texto:

Todos os artistas dessa publicação:

Referências:

31º Bienal – Como Encontrar Coisas que Não Existem. FUNDAÇÃO BIENAL.
http://www.31bienal.org.br/pt/about/749

A Arte Visual no Mundo Contemporâneo. UFSM.
http://cascavel.ufsm.br/revistas/ojs-2.2.2/index.php/revislav/article/view/2133

A Importância da Arte nos Dias de Hoje. ITAÚ CULTURAL.
http://www.itaucultural.org.br/bcodemidias/001594.pdf

Alessandro Petti. THE BERLAGE
http://www.theberlage.nl/persons/alessandro_petti.

Dan Perjovschi Central Court. SPENCER ART.
http://www.spencerart.ku.edu/exhibitions/perjovschi.shtml

Edward Krasinski. CULTURE.PL.
http://culture.pl/en/artist/edward-krasinski

Edward Krasinski. ESPAÇO HÚMUS.
http://espacohumus.com/edward-krasinski/

Equipe da Fundação Bienal de São Paulo. FUNDAÇÃO BIENAL.
http://www.bienal.org.br/bienal.php?i=66

História da Fundação Bienal de São Paulo. FUNDAÇÃO BIENAL.
http://www.bienal.org.br/bienal.php

Mark Lewis Invention at the Louvre. LOUVRE.
http://www.louvre.fr/en/expositions/mark-lewis-invention-louvre

Mark Lewis. CANADIAN ART.
>http://canadianart.ca/artists/mark-lewis/

My drawings not only sum up a situation, but work as logos. PERJOVSCHI.
http://www.perjovschi.ro/my-drawings-not-only-sum-situation-work-logos.html

Q&A with artist and filmmaker Mark Lewis. NATIONAL FILM BOARD.
http://blog.nfb.ca/blog/2009/09/04/qa-with-artist-and-filmmaker-mark-lewis/

Parque para Brincar e Pensar. GRUPO CONTRAFILÉ.
http://www.parqueparabrincarepensar.blogspot.com.br/p/o-projeto.html

Sandi Hilal. THE BERLAGE.
http://www.theberlage.nl/persons/sandi_hilal

*Acessados em 24 de abril de 2105.