Exemplos da Bienal 2014

Desde 2011, a Bienal de São Paulo conta com o Educativo Bienal, grupo que tem o papel de mediar a relação entre as pessoas e as obras, gerando diferentes tipos de aproximação com a arte. Durante a 31º Bienal, a Revista Escola, do Grupo Abril, com a colaboração do Educativo, produziu o simpático vídeo: O que é arte contemporânea? O exemplo da Bienal 2014. A produção exibe belas imagens da exposição e trata com leveza um tema que às vezes é muito confuso para as pessoas: a arte visual contemporânea.

O conteúdo é aberto pela Daniela Azevedo (coordenadora-geral do Educativo Bienal), mas também contribuem Pablo Tavallera, Marcos Felinto, Laura Barboza, Felipe Tenório e Elaine Fontana, todos do Educativo. Durante nove minutos, o expectador é levado a pensar sobre como é possível decodificar uma obra contemporânea a partir da relação entre o objeto e o repertório consciente ou inconsciente de cada pessoa. Repertório que pode incluir ou não conhecimento sobre a arte e os artistas.

A arte é relevante para a sociedade atual porque pode funcionar como indutora de fins não artísticos. É o que ocorre, por exemplo, com uma obra de conteúdo político. Imagine uma instalação que leve as pessoas a pensarem sobre um planeta sem água e que seja exibida para diferentes grupos de pessoas. Além disso, a arte ajuda a sociedade a perceber o mundo como ele realmente é e ainda propicia uma experiência estética intensificada. Por tudo isso, é importante estimular o contato com a arte, função da Bienal de São Paulo (e também deste ensaio).

No entanto, esta aproximação com a arte nem sempre resulta em afeição. Muitas vezes os espectadores não compreendem as manifestações a que estão expostos, o que os leva a duvidar de sua legitimidade (KUNZLER, 2010). Para o crítico de arte Agnaldo Farias, a incompreensão leva muitas vezes à rejeição e à aversão do espectador: algo que eu não compreendo é algo que afirma a minha impotência. Portanto é oportuna a estratégia da Bienal de São Paulo de investigar e discutir a essência do trabalho de cada artista com o público da exposição.

Uma das obras que estavam na edição 2014 do evento era Mujawara, dos arquitetos baseados em Israel Sandi Hilal e Alessandro Petti em conjunto com um grupo brasileiro.  Hilal e Petti são fundadores do The Decolonizing Architecture Institute (DAAR), ou Instituto de Arquitetura Descolonial. O DAAR explora as possibilidades de reutilização e subversão de estruturas de dominação na Palestina, como bases militares e restos de aldeias destruídas. Alguns projetos deste instituto já foram mostrados em várias bienais e museus. Para Hilal e Petti:

Nosso trabalho não deve ser interpretado como uma tentativa de articular uma utopia arquitetônica, nem como um instrumento político para “denunciar” ou “mobilizar” a opinião pública. Nós encaramos a nossa prática como uma tentativa de produzir um espaço a partir do qual é possível operar no aqui e agora. Entre seus efeitos poderia estar a abertura da imaginação política.

Mujawara, de Alessandro Petti, Sandi Hilal e Grupo Contrafilé. Foto: Bienal de São Paulo.
Alessandro Petti, Sandi Hilal e Grupo Contrafilé, “Mujawara”. Foto: Bienal de São Paulo.

Também participaram da concepção da instalação os brasileiros do Grupo Contrafilé, que realiza o projeto Parque para Brincar e Pensar, de pesquisa e intervenção urbana. O Grupo explora a necessidade de relação entre diferentes gerações e classes sociais nos espaços comuns da cidade. Estimulados a criar juntos, Hilal, Petti e o Grupo Contrafilé perceberam a conexão entre suas obras, mais marcadamente aquelas que tratam da ambivalência que ocorre na relação com a terra (terreno fértil para o comunitarismo e para contradições).

Os educadores da Bienal despertam diferentes visões sobre Mujawara. Para este blog, a instalação apresenta um belo símbolo da terra para fazer pensar sobre a ocupação do território e seus espaços de convivência. A visão do baobá em crescimento, árvore que pode atingir grandes dimensões, provoca uma reflexão sobre o potencial da terra, sua fertilidade, e sobre como escolher partilhá-la e usá-la.  Por possuir alguns dos seus realizadores radicados na Palestina, Mujawara evoca enormes conflitos sobre a terra – e que já fazem parte do cotidiano.

Esses conflitos também são comuns nas cidades ou nos campos do Brasil – basta lembrar dos movimentos Quilombolas e Sem Terra. No entanto, há alternativas? É isso o que propõem os criadores da obra que, mesmo atuando em territórios tão distantes, se assemelham ao revitalizar espaços destruídos ou abandonados para criar locais de encontro. Nestes ambientes pluralistas (e não-ideais), os participantes podem brincar ou aprender. Os mediadores buscam a acomodação de interesses nascidos a partir da interação entre pessoas de diversas classes sociais, regiões, gêneros e idades.

Alessandro Petti, Sandi Hilal e Grupo Contrafilé, “Mujawara”. Foto: Bienal de São Paulo.
Alessandro Petti, Sandi Hilal e Grupo Contrafilé, “Mujawara”. Foto: Bienal de São Paulo.

Além desta instalação, a filmagem da Bienal mostra desenhos de Dan Perjovschi e esculturas do polonês Edward Krasiński, falecido em 2004. Diz-se que o aspecto mais importante da produção de Krasiński é a sua própria vida e a sua atitude criativa frente à realidade. A “vida na arte”, de  Krasiński, contribuiu para que ele estivesse constantemente influenciando o mundo com sua personalidade, desafiando as formas tradicionais de arte e seus significados. Ele estudou design de interiores, design gráfico e pintura em Cracóvia, na Polônia.

Em 1964, ao ar livre, Krasiński criou a obra espacial Lança da Era Atômica, que pendurou em um local aberto entre as árvores. Com ela, Krasiński reduziu a escultura a uma linha. Em muitas de suas obras, o artista combinava objetos banais em constelações surpreendentemente simples, que se pareciam com gráficos geométricos, e alcançava um minimalismo formal. Se alguém quiser encontrar um tema orientador para toda a arte desse artista, o termo infinito parece ser o mais útil. Krasiński quis transformar o infinito em algo visualmente perceptível.

Edward Krasiński,
Edward Krasiński, “Untitled”, 1965. Foto: Culture.pl.

Dan Perjovschi usa marcadores pretos permanentes como principal meio para desenhar diretamente sobre as paredes de museus e espaços artísticos. Com seus desenhos, o romeno registra situações e eventos diários, bem  como fatos recentes na política internacional. Falando sobre si mesmo em uma entrevista em 2010, o artista disse: “Sou um performer. É como jazz e improvisação. Recorro a um repertório e um feedback contínuo de mim para mim mesmo. Cada desenho que adicionado na parede modifica a composição e o meta-texto. Eu sou um repórter global.”

Como parte do seu conceito artístico, Perjovschi realiza seus desenhos tanto em instituições de arte consagradas quanto em espaços marginais. Desse modo, leva questões problemáticas da periferia para espaços famosos e elitizados; e os caprichos das metrópoles mundiais para as paredes e janelas das cidades pequenas. Para o artista, a Internet e as redes sociais são um meio para levá-lo até o centro dos grandes acontecimentos mundiais, a partir dos quais ele cria suas sínteses visuais.

Dan Perjovschi's,
Dan Perjovschi’s, “What Happened to Us?”, 2007. Foto: MoMA NY.

Outro conteúdo suscitado pelo vídeo da Bienal são os filmes criados pelo fotógrafo, cineasta e artista canadense Mark Lewis. Suas criações tendem a tratar das cidades contemporâneas, da história do cinema e da forma como filmes têm impacto sobre vida a cotidiana. Os trabalhos de Lewis são descritos como experiências temporais puras, visualmente evocativas e predominantemente silenciosas. Suas filmagens costumam acontecer em lugares incidentais encontrados na vida cotidiana das cidades. Veja um filme.

Mas, o que há de comum entre os artistas mencionados nesta publicação? Essa resposta é parte do esforço para entender a arte visual contemporânea. Como a produção artística está ligada à sociedade, compreender o momento atual é especialmente útil para decifrar o novo na arte.  Um dos efeitos da 2ª Guerra Mundial na atualidade foi a incredulidade perante discursos atemporais e universalizantes. A contemporaneidade é anti-totalitária, fragmentada e afia inteligências para o que é heterogêneo. Nela, perde-se a grandiosidade, mas ganha-se a tolerância (LYOTARD, 2002).

Para o filósofo Otaviano Pereira, que tem ênfase na crítica da modernidade, há nos tempos atuais a quebra de valores “eternos” da civilização e a desistência dos valores da “alta cultura” iluminista, cedendo espaço para outras formas de manifestação cultural (como a cultura afro, por exemplo). Além disso, na contemporaneidade aparecem novas linguagens em todos os âmbitos de ação e das relações humanas; a inclusão das diferenças, antes negadas ou ocultas, do movimento das chamadas minorias; a inclusão da Internet e do conhecimento em rede, etc (PEREIRA, 2005).

Portanto, apesar de todas as obras e artistas estudados neste ensaio serem de um período classificado como contemporâneo, da década de 50 até hoje, é perceptível a pluralidade de linguagens, discursos, materiais e processos. Nem mesmo o espaço ocupado pelas criações é igual. Hoje os artistas estão distanciados das verdades absolutas de outras épocas e buscam desvincular-se até mesmo do objeto. A complexidade da arte de hoje faz parte da própria complexidade humana, mas ela se lança no desafio de se aproximar das pessoas de diferentes formas e surpreendê-las.

Assista ao vídeo que inspirou este texto:

Todos os artistas dessa publicação:

Referências:

31º Bienal – Como Encontrar Coisas que Não Existem. FUNDAÇÃO BIENAL.
http://www.31bienal.org.br/pt/about/749

A Arte Visual no Mundo Contemporâneo. UFSM.
http://cascavel.ufsm.br/revistas/ojs-2.2.2/index.php/revislav/article/view/2133

A Importância da Arte nos Dias de Hoje. ITAÚ CULTURAL.
http://www.itaucultural.org.br/bcodemidias/001594.pdf

Alessandro Petti. THE BERLAGE
http://www.theberlage.nl/persons/alessandro_petti.

Dan Perjovschi Central Court. SPENCER ART.
http://www.spencerart.ku.edu/exhibitions/perjovschi.shtml

Edward Krasinski. CULTURE.PL.
http://culture.pl/en/artist/edward-krasinski

Edward Krasinski. ESPAÇO HÚMUS.
http://espacohumus.com/edward-krasinski/

Equipe da Fundação Bienal de São Paulo. FUNDAÇÃO BIENAL.
http://www.bienal.org.br/bienal.php?i=66

História da Fundação Bienal de São Paulo. FUNDAÇÃO BIENAL.
http://www.bienal.org.br/bienal.php

Mark Lewis Invention at the Louvre. LOUVRE.
http://www.louvre.fr/en/expositions/mark-lewis-invention-louvre

Mark Lewis. CANADIAN ART.
>http://canadianart.ca/artists/mark-lewis/

My drawings not only sum up a situation, but work as logos. PERJOVSCHI.
http://www.perjovschi.ro/my-drawings-not-only-sum-situation-work-logos.html

Q&A with artist and filmmaker Mark Lewis. NATIONAL FILM BOARD.
http://blog.nfb.ca/blog/2009/09/04/qa-with-artist-and-filmmaker-mark-lewis/

Parque para Brincar e Pensar. GRUPO CONTRAFILÉ.
http://www.parqueparabrincarepensar.blogspot.com.br/p/o-projeto.html

Sandi Hilal. THE BERLAGE.
http://www.theberlage.nl/persons/sandi_hilal

*Acessados em 24 de abril de 2105.

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