Apropriações Afetivas

Os livros Apropriações/Coleções (2002) e O Triunfo do Contemporâneo (2012) trazem exemplos de artes visuais contemporâneas brasileiras. Eles foram publicados com o patrocínio do Santander Cultural, fundação do Banco Santander que tem a missão de incentivar manifestações da cultura contemporânea. Juntos, estes livros apresentam mais de uma centena de obras, entre pinturas, esculturas, objetos, coleções, instalações etc. Um fragmento desse conteúdo será abordado em dois ensaios aqui no Formas Vizinhas.

A primeira fonte será o Apropriações/Coleções, que foi concebido após cuidadosa pesquisa do teórico da arte Tadeu Chiarelli. O resultado foi a seleção de artistas de sete estados brasileiros, a partir dos quais é possível ampliar a compreensão sobre a recente produção artística nacional. Esses artistas têm em comum o fato de produzirem a partir de objetos preexistentes, efetivando apropriações. “Com isso, mudam a condição deste algo preexistente, o transformando em objeto artístico” (CHIARELLI, 2002, p. 3). A apropriação pode ser entendida desde a eleição de objetos e ideias até às práticas de colecionar e catalogar.

É esclarecedora a noção de apropriação que está implícita no conceito de readymade, criado pelo artista francês Marcel Duchamp. De acordo com ele, no seu readymade: um objeto comum é elevado ao estado de dignidade de uma obra de arte pela mera escolha de um artista. (DUCHAMP, citado por PELED, 2007).  Com isso, esse artista despertou uma nova visão sobre a arte e destacou o momento no qual a noção clássica de “isto é belo, enquanto arte” mudou para uma condição moderna: “isto é arte” (DE DUVE, 1998, citado por PELED, 2007). Essa estratégia contribuiu para que Duchamp seja, até hoje, considerado central na discussão sobre a arte contemporânea.

Duchamp nasceu em 1887 e estudou pintura na Académie Julian (Paris) até 1905. Após a declaração de guerra (1914), viajou para a América, onde, três anos depois, tentou expor sua obra A Fonte. Esse trabalho – um urinol assinado com o pseudônimo R. Mutt – se baseou na apropriação artística de um objeto de cunho utilitário. Naturalmente, um mictório do desconhecido senhor R. Mutt não poderia entrar em uma exposição; nem mesmo em uma mostra de artistas independentes (PELED, 2007). A Fonte ampliou o foco de atenção para além da “obra” artística em si, questionando também o “circuito” da arte.

No entanto Chiarelli (2002, p. 21) lembra que as apropriações artísticas já eram realizadas antes do readymade pelos cubistas, em suas colagens. “Nomeada como papiers collés (papéis-colados), essa técnica se desenvolveu rapidamente e muitos objetos, além de variados tipos de papéis, começaram a ser agregados à superfície das telas: madeira, areia, tecidos, cartas de baralho, entre outros materiais” (FONSECA, 2009, p. 3). Essa prática foi intensificada posteriormente por outros grupos modernos, como os surrealistas, e vem se intensificando até à contemporaneidade.

Nuno Ramos, "Sem título". Foto: Reprodução  Nuno Ramos.
Nuno Ramos, “Sem título”. Foto: Reprodução Nuno Ramos.

Apesar de as apropriações existirem na arte já há muito tempo, os termos “apropriação” e “apropriacionismo”, usados no âmbito da arte, tal como os entendemos hoje, surgiram no fim dos anos 70 como indicativos de uma modalidade artística (RIBEIRO, 2008). Nela, o artista nega a visão de arte pautada por sua originalidade e pela valorização do gesto criador. O mundo é encarado como uma grande enciclopédia de signos. A referência do artista passa a ser a cultura e não a natureza. Sobre isso, o artista conceitual Douglas Huebler (1968) escreveu: “O mundo está cheio de objetos, mais ou menos interessantes; não desejo adicionar-lhe mais nenhum. Prefiro, simplesmente, declarar a existência de coisas em termos de tempo e espaço.”

Diferentes formas de apropriação são praticadas pelos artistas presentes no livro Apropriações/Coleções. Essa realidade remete à imagem da produção artista contemporânea como um arquipélago.  Na visão do crítico da arte Agnaldo Farias (2002): “Um arquipélago porque cada boa obra engendra uma ilha, com topografia, atmosfera e vegetação particulares, eventualmente semelhante a outra ilha, mas sem confundir-se com ela. Percorrê-la com cuidado equivale a vivenciá-la, perceber o que só ela oferece”.  Mantendo este espírito investigador, neste texto serão abordados trabalhos dos artistas Elida Tessler, Paulo Gaiad e Fabiana Rossarola.

Elida Tessler vive e trabalha em Porto Alegre (RS). É artista plástica, pesquisadora e professora de artes visuais. Em 1999, Tessler participou da 2ª Bienal do Mercosul com o trabalho DOADOR, uma instalação com 270 objetos do cotidiano (e 270 placas de metal com inscrições) expostos no interior de um túnel branco. Para sua concepção, foram enviadas cartas a diversas pessoas com um pedido de doação. Cada pessoa deveria doar pelo menos um objeto de uso cotidiano que contivesse em seu nome o sufixo “DOR”. Nenhum dos objetos presentes no trabalho pertencia à artista.

Tessler está voltada para a exploração poética do ato de colecionar. Nesta instalação o que conta não é conceber uma coleção original, mas sim propor uma alegoria sobre a perda e a dor (CHIARELLI, 2002). Este corredor, de quase dez metros de comprimento, tem as mesmas medidas daquele que separava o apartamento de Tessler do apartamento do seu avô. “O corredor que os separava e os unia” (CHIARELLI, 2002, p. 29). Nos anos em que conviveu com seu avô, para a artista, este lugar de encontro significava afeto. Agora, após a perda, rememorava a dor.

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Coador, barbeador, espremedor, grampeador, ventilador etc. Tessler buscou uma dor latente e sonora, através das palavras solicitadas pelas coisas. Os nomes dos doadores de cada objeto estão gravados nas placas de metal. Essa instalação é representativa da contemporaneidade na arte. Seja pela prática da apropriação, pela participação do público no seu processo criativo ou por apresentar fragmentos de uma narrativa (KUNZLER, 2010). Além disso, DOADOR demonstra como na atualidade as artes visuais podem adentrar em territórios que não lhes são próprios, como o das palavras.

Outro trabalho no qual as pessoas foram convidadas para participar foi Receptáculos da Memória, de Paulo Gaiad. Nele o artista de São Paulo reforça  o vínculo já há muito explorado entre coleção e memória. “Tratar de apropriações, portanto, é também tratar de memória, coleções, de arquivos – instituições humanas sempre em mutação (…)” (RIBEIRO, 2008, p. 5). Essa intenção está cristalina no processo de concepção adotado pelo artista. Gaiad solicita às pessoas que lhe enviem objetos capazes de sintetizar momentos muito especiais de suas vidas, principalmente aqueles ocorridos durante a infância. Essa é sua taxonomia.

Quando chegam para o artista, esses objetos estão impregnados de um sentido que era inexistente no início do seu ciclo de vida, pois agora são depositários de afetividades. Para seus donos, eles simbolizam um passado totalmente idealizado  (CHIARELLI, 2002). Ao receber essas doações, o artista acrescenta a elas sua própria subjetividade, ora reafirmando, ora criando novos significados. Gaiad usa caixas de metal para unir as doações com os novos objetos e materiais. Há um encontro de sentimentos: os do doador com os do artista, que não é mais visto como um gênio criador, mas como um articulador de universos poéticos.

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Paulo Gaiad, 2002, “Receptáculos da Memória,”. Foto: Reprodução Apropriações|Coleções.

Os materiais acrescentados por Gaiad aos objetos doados podem ser entendidos por sua carga simbólica e por suas características físicas. Uma caixa guarda, protege e reúne; o metal resiste ao tempo (as falhas na sua superfície são provas dessa passagem) e é condutor de energia. Essas são leituras possíveis e, neste ponto, há uma aproximação entre Receptáculos da Memória e as obras do artista alemão Joseph Beuys. Por várias razões, Beuys é considerado um dos fundadores da arte contemporânea. Sobre o uso que ele fazia dos materiais, Elida Tessler escreveu (1996):

Ao mesmo tempo, pensando o material utilizado por Beuys, alcançamos uma via de acesso à compreensão de sua obra. […]. O feltro não tem direito nem avesso. Possuindo cor neutra, o feltro é destinado a servir de isolante, de proteção, com fortes referências à pele, manto, vestimenta. Em Beuys, os materiais são eles mesmos, no sentido de que não constituem matéria-prima para a criação de uma outra forma especifica. […]. 0 material nos permite experimentar sensações de estranhamento e identificações com determinadas realidades e é esta a incógnita motora de todo pensamento na obra de Beuys.

No entanto, nem sempre os objetos apropriados do cotidiano para a arte são possuidores de características físicas como peso e textura.  Para criar suas esculturas de tecido a artista Fabiana Rossarola, por exemplo, se apropria de fotos amadoras dos seus parentes e amigos mais próximos. De posse dessas imagens, ela as processa em fotocopiadoras (xerox) coloridas, ampliando-as até que atinjam o tamanho natural. Em seguida, Rossarola transfere as imagens para tecidos que serão estofados até que fiquem com a aparência tridimensional das pessoas retratadas. Essas esculturas peculiares levam a uma indagação: “A fotografia também é objeto?” (RAMIRO, 2002).

Fabiana Rossarola, 1999, "Sem Título". Foto: Reprodução MAM.org.
Fabiana Rossarola, 1999, “Sem Título”. Foto: Reprodução MAM.org.
Fabiana Rossarola, 1999, “Sem Título”. Foto: Reprodução MAM.org.
Fabiana Rossarola, 1999, “Sem Título”. Foto: Reprodução MAM.org.

A fotografia captura as imagens em um presente dinâmico e as congela em um passado estático, bidimensional e geralmente reduzido. A transformação que Rossarola realiza nos retratos, no entanto, intensifica essa paralisação produzida pelo ato fotográfico (CHIARELLI, 2002). Para o Formas Vizinhas, este trabalho expressa uma ambiguidade. Colecionar imagens de pessoas queridas é uma manifestação da afetividade da artista, mas a aparência das esculturas também expressa morbidez. Afinal, esses objetos reduzem ou intensificam a ausência das pessoas retratadas? Para Chiarelli, no entanto, este traço só aumenta as potencialidades poéticas destes trabalhos.

Este texto abordou obras de arte contemporâneas que contêm objetos cotidianos apropriados a sua estrutura. Para o sociólogo Jean Baudrillard (1994), o objeto colecionado deixa de ser definido pela sua função para entrar na ordem da subjetividade. Essa mutação ocorre nos trabalhos estudados, casos nos quais objetos se vinculam em coleções de afetividades. Além disso, nessas obras são utilizadas estratégias para transformar o público de “observador” para “coautor”. A arte contemporânea propõe modelos participativos que incorporam sujeitos ao ato criador. (CONSONI , 2013). Essas observações, porém, não encerram os sentidos destes trabalhos, cabendo a cada leitor o encargo de encontrá-los.

Artistas dessa publicação:

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Referências:

CHIARELLI, Domingos Tadeu. Apropriações/Coleções. Porto Alegre: Santander Cultural. 2002.

CONSONI, K. P. Artista, Obra e Público: Reflexões Sobre as Possibilidades de Interação com a Arte Contemporânea. Dissertação (Bacharelado em Artes Visuais). UNESC. 2013. Criciúma.
< http://repositorio.unesc.net/bitstream/handle/1/1860/Karize%20Pereira%20Consoni.pdf >

EUROPEAN GRADUATE SCHOOL. Biblioteca. Marcel Duchamp – Biography. Suiça.
< http://www.egs.edu/library/marcel-duchamp/biography/ >

FIDELIS, Gaudêncio. O Triunfo do Contemporâneo. Porto Alegre: Santander Cultural. 2012.

FONSECA, A. K. Collage: A Colagem Surrealista. Artigo – Revista Educação. UNG. 2009. Guarulhos.
< http://www.revistas.ung.br/index.php/educacao/article/view/462/569 >

KUNZLER, N. A. A Arte Visual no Mundo Contemporâneo. Artigo – Laboratório de Artes Visuais – UFSM. 2010. Jaguari. < http://cascavel.ufsm.br/revistas/ojs-2.2.2/index.php/revislav/article/view/2133/1295 >

MOTTA, Gabriela Kremer. Entrevista com Elida Tessler. 2005. Porto Alegre.
< http://tinyurl.com/entrevista-gabrielamotta >

PELED, Y. Ready Made: Inclusão Ruidosa. Artigo – Associação Nacional de Pesquisadores de Artes Plásticas. 2007. Florianópolis.
< http://www.anpap.org.br/anais/2007/2007/artigos/177.pdf >

RIBEIRO, V. C. Apropriação na arte contemporânea: colecionismo e memória. Artigo – Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas. 2008. Florianópolis. < http://anpap.org.br/anais/2008/artigos/075.pdf >

TESSLER, E. Formas e Formulações Possíveis entre a arte a vida: Joseph Beuys e Kurt Schwitters. Artigo – Revista de Artes Visuais. UFRGS. 1996. Porto Alegre. < http://seer.ufrgs.br/index.php/PortoArte/article/download/27571/16110 >

Acessos em 8 de Maio de 2015.

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